Eu tocava cada tecla daquele piano e podia sentir tudo em minha volta desaparecer e o rosto dela se fixar bem à minha frente. As pontas dos meus dedos iam varrendo a poeira do tempo e elas se escondiam pelos vãos. Já ela não se escondia, era melodia solta, cabelos longos e claros, era clava de sol.
Soava como lullaby, e nas noites mais escuras era melodia, minha 9ª e particular sinfonia.
Fechei o piano e reguei a rosa vermelha posta em sua parte superior. Vermelha como seu vestido, seu timbre, seu tom. Vermelho também era seu batom. E eu era seu amor, tanto quanto seu admirador. Posso ainda ouvir seu coração batendo no mesmo ritmo da canção, aquela do primeiro beijo, do inverno ao verão.
E bate
E me abate
Mas me deixa firme, com os pés no chão.