Quando eu era criança, tinha um pesadelo que se repetia por várias e várias noites. Eu estava escondida embaixo de uma mesa branca dentro de uma sala também da mesma cor. Algumas pessoas estavam sentadas em volta, inclusive meu pai e minha mãe. Havia um padre na ponta da mesa e uma senhora de idade ao lado dele, de cabelos grisalhos, roupas sujas e rasgadas, com muitas rugas por todo o rosto, suas unhas eram pontudas, afiadas e mal cuidadas, como uma velha onça faminta, mas cansada demais para caçar. Ela empunhava uma faca de cozinha e se mostrava um tanto quanto atordoada, os olhos quase saltavam das órbitas num revirar perturbador, com as pupilas injetadas com alguma fixação doentia. Eu estava lá, com medo de sair debaixo daquela mesa, com medo de que velha esquisita pudesse vir ao meu encontro, tentar algo que me machucasse ou aos que estavam presentes. Mas criei coragem e, num roupante, antes que mudasse de opinião, sai correndo. Foi então que percebi onde estávamos: era uma igreja, a igreja que costumava passar boa parte do meu tempo já que minha mãe me levava aos encontros para rezarmos terços e cantar glória à Deus. Aquela igreja estava mais presente em minha vida do que minha própria casa. Assim que consegui me localizar, vi que meus pais haviam saído correndo junto comigo pelas escadas. Aquela velha começou a nos seguir, correndo - a seu tempo, de maneira trôpega e desconjuntada - atrás de nós. O único caminho a se tomar era o de um labirinto, todo enfeitado com rosas pintadas de vermelho sangue, assim como em "Alice no país das Maravilhas". Pois me vi tendo de entrar naquele labirinto. Não poderia voltar atrás, era uma criança desesperada que não sabia agir sob a pressão do medo. Alías, você não precisa ser uma criança para agir assim. Estava tentando encontrar a saída quando decidi olhar para trás em busca dos meus pais, mas é claro, sendo um autêntico pesadelo, eu havia de perde-los no caminho. As flores e os arbustos foram ficando cinzas, como se alguém tivesse provocado uma queimada, tudo ao redo se despedaçando e esfarelando, e o cheiro de rosas mortas e tinta fresca foi invadindo meus pulmões. Tudo atrás de mim ia minguando até que não sobrasse uma só forma visível. Tropecei em algo e caí. Olhei rapidamente para cima, mas a escuridão era a única coisa que havia. Um céu sem estrelas e sem a lua iluminada, deu pra imaginar como seria perder a visão. Horrível.
Mas a sensação não durava muito e me via dentro de um estacionamento. Era daqueles de prédios que se vê na televisão onde sempre acontece algo de muito suspeito e o telespectador acaba levando um susto. Tudo ali em tons de cinza e com luz parca. Só me faltava um carro a toda velocidade me atropelar ou algo do tipo. Mas não, não era o que acontecia. Na verdade, ao final deste estacionamento havia uma escada e uma grande porta de metal, que fazia um barulho de porta de filme de terror ao se abrir. Lá em cima, vinha uma mulher jovem sentada em uma cadeira de rodas. Franja rente às sobrancelhas, grandes olhos castanhos, um nariz comum e sutil, boca delineada em batom rosa, pele clara, com uma roupa toda em tons de rosa, o que dava um tom de barbie anos 60 naquele cenário monocromático. Ela gritava para que alguém a ajudasse a descer as escadas e este alguém não era eu, tenho certeza. Não apenas por eu ser uma criança, mas por ela estar olhando além da minha altura. Um homem, de terno e gravata (aparentemente estavam prontos para um encontro muito importante) foi se aproximando ao chamado da moça. Mas antes que ele pudesse ajuda-la - e como se o pesadelo não pudesse piorar um pouco mais - os membros do corpo dela começavam a cair. Primeiro a mandíbula se desprendia, depois os pulsos, os pés, braços e pernas. Um a um iam caindo como peças de um conjunto de blocos de montar extremamente de mau gosto, inapropriado para menores ou qualquer fosse sua idade. Aquela cena grotesca não era legal para ninguém, muito menos para mim, que sonhava com aquilo dia sim, dia não.
Antes que pudesse saber o desfecho da mulher desmembrada (se é que podia haver um diferente da morte) eu acordava, e o cheiro daquelas rosas, da primeira parte do pesadelo, permanecia. Até hoje sei identificar o aroma exato, já senti em algumas pessoas e isso me fazia ter cisma com elas e medo. Haviam duas mulheres que tinham este mesmo perfume que frequentavam a igreja - uma outra igreja, numa outra cidade - e sempre tentava permanecer o mais afastada delas possível. Sim, era paranoia minha, mas e daí? Não tinha esse direito depois de tudo?!Outra vez, o senti em um shampoo, na casa da minha avó, quando fui tomar banho. Passei o produto no cabelo e logo o cheiro incendiou o banheiro. Eu juro de pés juntos que comecei a passar mal por sentir aquilo. Lavei a cabeça três vezes com outro shampoo. Todo esse pesadelo nunca mais saiu da minha cabeça e toda vez que penso nesta história, tenho uma sensação estranha, como se estivesse revivendo o passado, cada momento em que temi o pesadelo, cada noite que o vivenciei em minha mente. E até hoje tenho medo de que ele volte a me assombrar.
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